Semeando…

Conforme se aproxima a primavera, algumas árvores que floriram no inverno se preparam para lançar ao vento suas sementes, cada uma delas trazendo em seu interior o potencial de uma nova árvore.

Assim também o projeto Raízes e Sementes se prepara para lançar aos ventos as sementes que se firmarão na terra e criarão raízes, como uma árvore, vivendo de forma sustentável, abraçando e alimentando, oferecendo um modelo de resiliência e viabilidade.

Aguardem, porque muitas novidades virão em breve!

A guerra dos sexos na propaganda

Há tempos tenho me sentido incomodada com um tema que tem se repetido na mídia, e mais recentemente em comerciais de televisão – mulheres sendo enganadas por homens.

 

Logo de início vou abrir um parêntesis, e adoraria que os leitores do ramo da propaganda me esclarecessem qual o motivo do seguinte fenômeno: por que é que, de uns tempos para cá, toda propaganda tem que ser engraçadinha? Obviamente não fiz um estudo aprofundado sobre isso, até porque não assisto televisão com a frequência necessária, mas diria que 90% das propagandas falam pouco ou nada do produto ou serviço que pretendem divulgar, retratando apenas alguma situação pretensamente engraçada e, no mais das vezes, totalmente alheia ao que deveria ser o foco da peça.

 

E aí entra uma das minhas reflexões – na verdade, inconformismos! – com essa “tendência” atual da propaganda. Qual deveria ser a graça numa situação em que um homem está enganando uma mulher?

 

Até a Bienal do Livro entrou na dança. Para incentivar o contato com as palavras, uma peça veiculada na TV mostra as palavras “marido” e “esposa” caminhando, quando passa uma “garota”, e o marido vira para “apreciar” o seu “traseiro”, tropeçando na esposa, que caminhava à frente. A esposa joga a “água” do seu “copo” no “marido” e dá o troco olhando para um “surfista” que passa. Isso num comercial que deveria chamar a atenção para o mundo das Letras, que em princípio deveria servir à transformação, e não ao reforço de estereótipos ultrapassados e prejudiciais à sociedade.

 

Os exemplos são inúmeros. Em uma peça de uma seguradora, um homem inventa mil desculpas improváveis para explicar à sua mulher e seus filhos por que se atrasou para buscá-los em uma festa infantil. Na propaganda de um carro, o rapaz troca a esposa chata (toda esposa é chata por definição, certo? Argh!) por uma turma de amigos e uma jovem descolada. Isso sem citar todas as propagandas de cerveja, as novelas, os “escândalos” nas revistas de fofocas…

 

Então pergunto: a quem serve a perpetuação dessa ideia de que os homens e as mulheres estão em lados diferentes de uma batalha dos sexos? A quem interessa reforçar comportamentos em que imperam a traição e o desrespeito?

 

Muitos homens, criados nesse clima de “guerra dos sexos” (e muitas mulheres também, imersas no mesmo contexto) devem achar isto tudo muito normal – as mulheres são chatas, os homens vivem arrumando um jeito de enganá-las, e assim caminha a humanidade. Todos felizes, certo?

 

Não! A perpetuação desse tipo de relação entre homens e mulheres não só torna as mulheres infelizes por se sentirem desrespeitadas por aqueles que deveriam ser seus parceiros de caminhada pela vida. Esse modelo também é insatisfatório para os homens, porque também os faz caminhar sozinhos, envolvidos em uma rede sem fim de pequenas e grandes mentiras, impossibilitados de viver de forma verdadeira, plena e em paz. Porque o homem que engana aquela mulher com quem deveria compartilhar “alegrias e tristezas, saúde e doença” antes de tudo engana a si próprio, pois vive uma vida de mentiras.

 

Eu, pessoalmente, optei por dedicar a minha vida a desconstruir esse e outros modelos ultrapassados e prejudiciais, e a construir novos modos de vida, em que possamos ser companheiros uns dos outros, levando em conta o bem-estar do todo em cada uma de nossas ações. E convido você a fazer sua parte. Se mudarmos a forma como nos relacionamos com os homens, mulheres, animais, plantas – enfim com o nosso mundo – um dia a mídia terá que mudar a forma como ela retrata esses relacionamentos.

Perdão

Quando se fala em perdão, normalmente temos a impressão de que é algo que fazemos pelos outros – e que eles não merecem.

Mesmo que se enfatize o benefício do ato de perdoar para aquele que perdoa, como conceito essa ideia parece sempre muito abstrata, irreal, doutrinária – principalmente quando estamos com o coração cheio de mágoa, rancor, raiva.

Nesses casos, é mesmo difícil conceber a ideia de “dar quitação” a alguém que, na nossa opinião, não pagou a dívida. Nos parece que, ao fazê-lo, estaríamos nos prejudicando, já que não recebemos reparação – e pior, estamos incentivando o “inadimplente” à medida que o deixamos impune.

Mas o que é difícil ver nesses momentos é que a única reparação possível depende inteiramente de nós mesmos. Porque a mágoa e o ódio, quando encontram terreno fértil, se desenvolvem velozmente, crescendo como o tempo como os juros do agiota.

Pode parecer difícil encontrar argumentos para perdoar. O argumento acima, como já foi dito, dificilmente se mostra suficiente. A dificuldade advém, em parte, da tendência de mantermos os padrões de pensamento com os quais nos acostumamos. A trilha dos pensamentos rancorosos se inscreve em nossa mente e se transforma na rota principal de nossas ideias.

É preciso fazer um esforço de mudança de percepção para ver as coisas sob outro ângulo: subir ao topo da colina para ter uma visão mais panorâmica da situação e avistar, quem sabe lá embaixo, um novo caminho para trilhar, livre do ódio – caminho esse que é a liberdade.

O rancor nos liga ao sofrimento, não nos deixa prosseguir. O perdão nos liberta.

De novo, isso soa doutrinário. Não há mesmo receita pronta de como perdoar. O segredo, como em toda situação difícil, é mudar a percepção, adotar um novo ponto de vista, mudar os pensamentos – conscientemente.

Do alto da colina, o tesouro que liberta poderá ser vislumbrado mais facilmente, pois deste ponto de vista temos a visão da crista da onda que cada um de nós representa no oceano do que Deepak Chopra chama de espírito não local. E tendo a consciência de sermos uma onda que faz parte do todo, nosso ego dá passagem ao perdão.

A partir desse novo ponto de vista, nem sempre a visão da ofensa desaparecerá – mas pode ser que ela pareça menor, talvez até compreensível, se não justificável. Mas, principalmente, veremos que ela pertence a uma outra dimensão: a das coisas passadas.

Vendo-a dessa forma, pode ser até que consigamos reconhecer o valor das lições que ela nos ensinou. A cicatriz que fica, seja ela grande ou quase imperceptível, passa a fazer parte da nossa história, junto com as lições aprendidas. Mas ela não pode mais nos machucar, pois a dor pertence ao passado.