Arte e transgressão

A Arte é uma das formas escolhidas pela alma para exercer a transgressão que tem como objetivo mudar o mundo, romper com a tradição e garantir a sobrevivência da espécie e sua evolução.

O que você quer mudar? “Seja a mudança que quer ver no mundo”, e assim, SEJA ARTE! Viva a arte, sem deixar de viver a tradição. Mantenha a tensão, porque tensão é a energia que gera movimento e transformação – e luz!

A luz só existe na tensão com a sombra. Por isso não se pode negar a sombra, porque assim também se nega a luz.

Luz e sombra, tradição e traição – a arte engloba os opostos, e por isso é paradoxal. O que bloqueia o fluxo da inspiração é a tentativa de fixá-la em apenas um lado do par de opostos. Permita-se ser completo e contraditório, e assim viverá em arte e inspiração!

Os antigos bardos bebiam na fonte do passado para deixar sua marca no futuro, na forma da semente que plantavam naqueles que ouviam suas histórias, ou na forma de sátiras que podiam acabar com a vida de suas vítimas.

Ontem, como hoje, a arte é a transformação que possibilita a continuidade. Não é exagero, pois, dizer que a arte contribui em muito com a permanência da nossa espécie no planeta.

Viver realmente

Carne, osso, sangue pulsante, um cérebro grande demais (e não ter medo de fazer poesia, e não ter medo de não fazer poesia).

Bicho cheio de instintos, que se orgulha de não ser selvagem. Surgido ontem, gaba-se de ser o único a estudar, conhecer, escrever o passado, mas se esquece dos bilhões de anos em que a Terra existiu antes dele.

Se esquece de que havia vida humana antes do plástico, das indústrias, dos chips, da rede.

Havia outra vida, em outra rede. Havia significado em nossos atos, no movimento da mão que planta, da mão que colhe, da mão que mata e da mão que faz nascer.

O significado que se perdeu quando nos esquecemos que o nosso significado é o significado do universo, que a terra é o significado do universo, que nossas qualidades e defeitos são aspectos da divindade que é o cosmos, divindade que a ciência não diminui, mas amplifica.

Ser parte do universo é fazer esse significado fluir através da nossa existência. É viver aquilo que representa em nós a divindade cintilante do universo.

Fazer poesia está mais próximo do divino da existência do que passar a vida em um escritório fazendo um trabalho sem sentido.

Fazer música está mais próximo do pulsar primordial do universo do que passar horas todos os dias dentro de um carro respirando fumaça.

Plantar e colher é estar em relação direta com aquilo que realmente nos sustenta.

Contemplar um belo dia de céu azul, ouvir os pássaros, sentir a brisa e a chuva na nossa pele – é para isso que estamos aqui, é disso que somos feitos…

Essas são palavras que digo a mim mesma como um lembrete. Porque quando morrer, quero ter vivido.

 

* Este texto foi inspirado pelo curso Earth Activist Training e todos que o ministraram e participaram, por Thomas Berry e sua grande obra, “The Great Work”, pelo druidismo e  Emma Restall Orr, pela paixão que transpira da música de Glen Hansard, Marketa Irglova e a banda The Swell Season, e por todas as pessoas que não têm medo de viver a poesia de ser.