Perdão

Quando se fala em perdão, normalmente temos a impressão de que é algo que fazemos pelos outros – e que eles não merecem.

Mesmo que se enfatize o benefício do ato de perdoar para aquele que perdoa, como conceito essa ideia parece sempre muito abstrata, irreal, doutrinária – principalmente quando estamos com o coração cheio de mágoa, rancor, raiva.

Nesses casos, é mesmo difícil conceber a ideia de “dar quitação” a alguém que, na nossa opinião, não pagou a dívida. Nos parece que, ao fazê-lo, estaríamos nos prejudicando, já que não recebemos reparação – e pior, estamos incentivando o “inadimplente” à medida que o deixamos impune.

Mas o que é difícil ver nesses momentos é que a única reparação possível depende inteiramente de nós mesmos. Porque a mágoa e o ódio, quando encontram terreno fértil, se desenvolvem velozmente, crescendo como o tempo como os juros do agiota.

Pode parecer difícil encontrar argumentos para perdoar. O argumento acima, como já foi dito, dificilmente se mostra suficiente. A dificuldade advém, em parte, da tendência de mantermos os padrões de pensamento com os quais nos acostumamos. A trilha dos pensamentos rancorosos se inscreve em nossa mente e se transforma na rota principal de nossas ideias.

É preciso fazer um esforço de mudança de percepção para ver as coisas sob outro ângulo: subir ao topo da colina para ter uma visão mais panorâmica da situação e avistar, quem sabe lá embaixo, um novo caminho para trilhar, livre do ódio – caminho esse que é a liberdade.

O rancor nos liga ao sofrimento, não nos deixa prosseguir. O perdão nos liberta.

De novo, isso soa doutrinário. Não há mesmo receita pronta de como perdoar. O segredo, como em toda situação difícil, é mudar a percepção, adotar um novo ponto de vista, mudar os pensamentos – conscientemente.

Do alto da colina, o tesouro que liberta poderá ser vislumbrado mais facilmente, pois deste ponto de vista temos a visão da crista da onda que cada um de nós representa no oceano do que Deepak Chopra chama de espírito não local. E tendo a consciência de sermos uma onda que faz parte do todo, nosso ego dá passagem ao perdão.

A partir desse novo ponto de vista, nem sempre a visão da ofensa desaparecerá – mas pode ser que ela pareça menor, talvez até compreensível, se não justificável. Mas, principalmente, veremos que ela pertence a uma outra dimensão: a das coisas passadas.

Vendo-a dessa forma, pode ser até que consigamos reconhecer o valor das lições que ela nos ensinou. A cicatriz que fica, seja ela grande ou quase imperceptível, passa a fazer parte da nossa história, junto com as lições aprendidas. Mas ela não pode mais nos machucar, pois a dor pertence ao passado.